tudo pode ser
basta acreditar
As crianças meninas e viadas seguiam a palavra da Xuxa para fazerem seus sonhos acontecer. Agora, as meninas e os viados (e a intersecção entre eles) vão para São Paulo.
Esse é um texto sobre pertencimento.
Com mais de 1.500 quilômetros quadrados, 11 milhões de habitantes e 32 subprefeituras, a capital a la Nova York consegue me surpreender a cada dia. Hoje, me senti A (isso mesmo, artigo maiúsculo) manic pixie dream girl paulistana com aquele toque misterioso que só o interior é capaz de proporcionar.
Caminhando pelas calçadas da Vila Olímpia com minha boina estilosa e meus fones de fio sabia que fazia parte de algo maior que os homens engravatados e as dondocas que saíam com suas malas da Louis Vuitton e entravam em outra loja no JK. E meu sonho lúcido foi comprovado quando, em um ônibus lotado e balançante, um homem bem estilosinho sentou ao meu lado, me cutucou e me mostrou uma foto minha em seus stories com a legenda “2000s”. Meu rosto não aparecia, somente minha linda boina bege com estrelas.
Fiquei toda toda, não vou mentir. Infelizmente minha vergonha e auto consciência exacerbadas me impediram de pedir o instagram dele, vai ficar só na memória. Em compensação, um esquisito quase me atropelou com a bicicleta e depois meteu uma cantada, fiquei chocada com a audácia, nem um risinho consegui soltar… coisas da vida (ou da capital), não?
São Paulo é uma cidade individualista, brutal, cheia de prédios e escassez de sombras naturais. Mas São Paulo também significa possibilidade. Possibilidade de se descobrir como pessoa, como parte de uma comunidade, de criar seu espaço seguro em meio a tantas notícias cruéis que crescem da pedra e do asfalto. E são nos pequenos momentos que percebo essa conexão com as coisas e com as pessoas que vou colecionando por aqui.
É na conversa de sexta-feira com o Sergio sobre referências e gostos e sites e moda. É nos conselhos tão paulistanos de Henri sobre viver a vida. É nas indicações e gírias de Taffa e nas pessoas que conta ter conhecido. É nos gatos (gordo, fino e branco) que amam a minha cama e tomar sol na minha janela. É na minha faculdade que me mostra como estou errada, mas também estou certa, todos os dias.
É no pão na chapa do Max Lanches, nas minhas compras constantes no Vila das Frutas, nas manhãs onde as lojas ainda não abriram na Oscar Freire, nas ruas inclinadas da Vila Madalena com suas três casas idênticas e nos deliciosos drinks que tomei no Caixote.
É sobre sentir que faço parte de algo maior.
E acho que esse sentimento é que acaba atraindo tantas pessoas que não se veem florescendo nas cidades pequenas, nas conformidades e nos padrões, para São Paulo. Essa cidade tão… cheia. Porque aqui você é só mais um, mas ao mesmo tempo não. São tantas histórias que carregamos dentro de nós que é impossível você conhecer, minimamente, alguém e pensar que essa pessoa não está te impactando – da mesma forma que estamos impactando quem nos escuta.
Tudo que eu fizer
Eu vou tentar melhor do que já fiz
Esteja o meu destino onde estiver
Eu vou buscar a sorte e ser feliz
clarice sabia muito
Eu sou muito fã de anos ímpares, não à toa meus números favoritos são 3 e 7. Sinto que tudo dá certo neles e me esforço para prestar atenção nos pequenos detalhes que fazem um ano nada divisível por dois ser tão interessante. É como se nos anos pares eu me permitisse só ser afetada enquanto nos ímpares escolho afetar e sentir e trocar.
Coincidentemente, depois de escrever esse parágrafo, li Você é um número e sinto, também, que esses ímpares me pertencem, que são meus de um jeito que não são de outros.
Comecei a reparar em 2023.
Último ano do ensino médio, amigos, rolês, viagens e shows… esses pequenos momentos inovadores começaram a tomar conta de uma parte mais importante na minha vida, na minha personalidade e em minhas escolhas.
Em janeiro, havia ido ao primeiro show que realmente me interessava, com uma amiga ainda por cima, só nós duas. Roupas combinando com os artistas, muitos efeitos estroboscópicos ao vivo e uma grade cinza que media nosso sucesso de se aproximar deles. Esse show não só fez minha obsessão expandir, mas mudou minha amizade com Melissa de formas inexplicáveis, nunca mais fomos as mesmas.
Junho foi o mês mais radical. Foi ele que me transformou, me ajudou a entender quem sou e como valorizar minhas decisões. Meu cabelo sofria com uma sobreposição de castanho no azul desbotado e um loiro amarelado. O comprimento não ajudava muito também, mas rever minhas anotações me divertindo com meus amigos do coração e registrando esses flashes de felicidade acabou sendo o que marcou essas quatro semanas. Foi quando nasceu o superestudiosas, quando assisti (outro) show da minha vida e, dois dias depois, fui à praia com os mesmos migos do coração pela primeira vez.
Era como se trinta dias tivessem durado para sempre, sem previsão de mudança ou fim, somente memórias sendo criadas. Agora, cada um em uma cidade e o contato, mínimo. Pequenas interações nas redes sociais ou uma conversa ou outra mais profunda para atualizar sobre nossas vidas – vidas essas que não sei as feições das pessoas que os cercam ou o que comeram no almoço. Só percebi como essa distância me impactou na noite quente de um domingo enquanto via nossas fotos de reencontro e comecei a chorar, soluçando de saudade.
Sabia que 2025 – claro, por ser um ano ímpar – me prometeria coisas boas (ou talvez eu só tenha apenas me esforçado para que elas acontecessem). De qualquer forma, tive minha confirmação.
Um ano desde que comecei a vir para São Paulo e a mesmice do trajeto do trem e das árvores interioranas me causava angústia. Agora, sou eu quem ofereço moradia para os meus amigos interioranos virem no meu aniversário.
meu prédio não tem portaria
Comecei a notar um padrão nas novas residências paulistanas: minúsculas, caras e solitárias. O espaço sem paredes de 20 m² com aluguéis que iniciam em dois mil reais não supre a necessidade de gente que a capital tenta extinguir dentro de seus habitantes.
Quanto mais isolados e sufocados, mais esses mini moradores de mini casas precisam pensar em espaços para ocuparem, para compartilharem. Ficar presos em suas caixas os impede de receber as pessoas que realmente fazem a cidade significar algo para nós.
O meu prédio é diferente. A circulação de pessoas é intensa e a porta de entrada fica sempre aberta. A muralha que distingue lar de rua é apenas uma porta de metal rente à calçada e a proteção está no molho de três chaves necessárias para me levar do ponto A (rua) ao ponto B (tapete de boas-vindas do meu apartamento). É uma rotina que choca quem vê de fora, mas para quem mora, já entende.
Preciso reconhecer que, embora sufocante, muitas vezes os casulos têm uma portaria – o que o meu prédio não tem. E, por não ter portaria, ele também não tem porteiro. Nossas encomendas têm que ser pensadas, revisadas e acompanhadas a todo momento, mas, pelo menos, temos uns aos outros para receber aquela caixinha que ninguém consegue assinar.
O apartamento ao lado, com sua mini comunidade de mãe, pai, três filhos, avô e avó; a fresta da porta no primeiro andar que me permite enxergar apenas duas cadeiras e uma mesa – normalmente vazias – e um display da Vivo pendurado; uma porta de metal que leva, ao que parece um jardim, ou uma varanda térrea, não sei dizer; ou, ainda, o misterioso apartamento acima, acessado por uma pequena escada, mas que dizem ter uma linda sacada.
Temos o Roberto também – o cara que cuida do prédio, ajeita o que quebra, varre a calçada, entrega recados – que não sei como se parece, mas imagino já ter esbarrado. Talvez ele seja mais do que um porteiro seria.
Como um verdadeiro prédio misto, ele, além de não ter portaria, também não se encaixa no conceito-tendência das kitnets a la solitude. As escadas levam a apartamentos amplos e, no meu caso, moramos em três pessoas e três gatos, cada um com um quarto para chamar de seu e áreas comuns para chamar de nossa.
Nossa. Um pronome possessivo que não é tão visto na capital, em especial nessa crescente de moradas egoístas, de isolamento forçado.
Meu prédio não tem portaria, não tem porteiro e também não tem elevador. É imperfeito, mas é meu e as pessoas que vivem ali, que encontro nos corredores, também são minhas, assim como sou delas. Os “bom dia”, a educação em segurar a porta para quem sai e a cantoria das vizinhas durante o final de semana fazem com que a gente perceba que, no fim, o que mantém um prédio vivo não é a segurança, mas quem realmente passa por ele todos os dias.
Em tempos em que a convivência é sinônimo de risco e solidão tornou-se estilo de vida, viver num prédio sem portaria é fazer de São Paulo um pouco mais coletiva. Um pouco mais nossa. Um pouco mais minha.



são paulo é definitivamente muito mais legal agora que ela é um pouquinho sua também