protect the dolls
a violência sistêmica contras pessoas trans não vai se encerrar nelas
Cruzei recentemente com um sorteio sádico de palavras difíceis que o pseudo-autor, Danilo Cavalcante, organizou e não pude acreditar que alguém escolheu 1. se sentar 2. decidir o que achava “feio” no grupo de pessoas que diz sentir-se atraído e 3. opinar por caracteres que não deveriam estar em seu controle.
Em “A travequização das mulheres”, Danilo montou um circo de ódio e depreciação a elas ao afirmar que cirurgias plásticas – constantemente vendidas, publicizadas e incentivadas – apenas as aproximam do não-ideal de beleza: as travestis. Segundo sua teoria, sua feminilidade seria exagerada, um “teatro de identidades”, e as mulheres cisgênero estariam iniciando um ato nessa peça ao recorrer a tais procedimentos estéticos.
A “performance”, contudo, é há muito tempo vista como escudo, resistência. Da identidade, das vivências e da sobrevivência de mulheres transgênero e travestis – sobrevivência essa que vem sendo testada, cutucada e questionada a cada três dias – é que se fez (e faz) história, ao mesmo tempo em que coloca um holofote sobre assuntos que incomodam.
O título escolhido por Danilo acaba por revelar muito mais que um preconceito e uma falsa preocupação com a beleza e saúde feminina. Ele pincela questões políticas e legais que questionam o que é ser mulher e que direitos alguém que grita, veste e ressoa feminilidade vem enfrentando em um contexto de implementação de leis transfóbicas por todo o mundo.
Esse é um texto sobre o governo Trump.
A onda conservadora das redes sociais se transformou em tsunami na Suprema Corte americana ao reconhecer apenas os gêneros feminino e masculino, biologicamente designados, como existentes, levando à alteração em documentos e ao banimento do serviço de aposentadoria de militares trans.
Além disso, perseguiu centros médicos que realizaram procedimentos de redesignação sexual de gênero em menores de idade e realizou cortes orçamentários em escolas na Califórnia que mantivessem o programa de educação sexual e demonstrassem apoio às causas transgênero.
Desde sua posse, Trump enfatiza as principais bandeiras levantadas pelo seu governo e o medo delas se concretizarem ao menos era minimizado quando se imaginava que um ataque direto aos direitos humanos atrairia barreiras legais e sociais, mas não foi isso que aconteceu. Em um país que é conhecido por se orgulhar da liberdade de seus cidadãos e de revoltas pela tomada de direitos, Trump conseguiu, não só revelar, como escancarar uma face que se debruça em represálias contra “inimigos do Estado” e “defensores da ideologia de gênero” como política pública, dificultando enxergar uma luz no fim do túnel para as vítimas de suas decisões.
Um governo que encontra no ódio uma arma poderosa e apela para o medo do irreal e a visões pejorativas de minorias para manter seu poder é covarde. Silenciar a pluralidade é rejeitar a própria humanidade e todas suas complexidades. É iniciar uma guerra que não tem fim quando a própria existência se torna uma ameaça. Tudo isso apresentado e decorado com um triângulo rosa, símbolo usado nos campos de concentração nazistas para identificar homens homossexuais ou pessoas trans designadas homens.
Este ano marcou 54 anos desde a Revolta de Stonewall, uma luta que se iniciou com mulheres trans e travestis e reivindicava igualdade e proteção contra ataques policiais. Este ano, também, Trump apagou referências à identidade dessas mesmas militantes do site Monumento Nacional de Stonewall.
A reescrita e seleção de fatos históricos não apenas distorcem a “verdade de nossa História, mas também desonra as imensas contribuições de indivíduos transgêneros”, pronunciaram o Stonewall Inn e a Stonewall Inn Gives Back Initiative, o bar em que ocorreu a revolta e ONG do local, respectivamente.
Diante de duras decisões legais, uma revolução silenciosa, um gesto empático, foi pensado como protesto: as camisetas brancas com letras garrafais.
“Protejam as bonecas” – expressão carinhosa para se referir a mulheres trans –, do estilista Conner Ives, estampa a indignação e o repúdio às novas leis transfóbicas de Trump, assim como “Como amamos é quem nós somos”, de William Chavarria, e “O Golfo do México”, de Patricio Campillo – que contesta a mudança do nome da região para Golfo da América.
Desfilar com opiniões não é algo novo, mas se tornou necessário em um contexto de derrubadas constantes dos direitos humanos e nenhuma perspectiva de melhora. Alvos vêm sendo acumulados e bodes expiatórios, criados.
Alguns dizem que estamos doentes, somos loucos. E outros pensam que somos as coisas mais bonitas e especiais do planeta Terra
— Venus Xtravaganza, em Paris Is Burning
Até quando homens como Trump e Danilo continuarão a ditar as identidades que merecem respeito, que merecem ser reconhecidas, respeitadas e elogiadas? Quantas (e quais) camisetas mais serão necessárias para combater uma política baseada na perseguição e no ressentimento?





arrasou duds, vc sendo a voz da geração #slay
👏